Uganda. A voz dos que não desistem.

O médico Antonio Loro que mora em Campala, capital da Uganda e trabalha com a população há muitos anos fala sobre a situação do país com a pandemia. O médico conta o curioso caso do país onde há poucos contágios até 25/05 nenhuma morte pelo coronavírus.

Antonio Loro trabalha desde 2009 em Campala, capital da Uganda. Médico cirurgião, pediatra, nos fala sobre a situação social e da saúde da região, proporcionando-nos histórias de unidade, solidariedade, vida.  


O isolamento torna o país ainda mais frágil

Em Uganda o lockdown foi aplicado de forma muito restritiva; provavelmente nesta semana reabrirão os transportes e outras atividades. Pode-se dizer que criou uma situação muito difícil para um país que já vive em grande sofrimento, que está lutando de um ponto de vista econômico, como muitos no continente. "O impacto foi terrível", comenta o doutor Antonio Loro. "Foram certamente medidas necessárias, acredito que o Governo fez bem - especifica – mas a situação social é muito frágil". A população está sofrendo, mas o governo parece se mostrar muito próximo ao povo, com contínuas comunicações pelo rádio a respeito da necessidade de limpeza, e de lavar as mãos. Também foram distribuídas máscaras gratuitas para todos, e também alimentos: feijão, um pouco de açúcar e um pouco de sabão. Mas aqui 80% da economia é informal e por isso o impacto sobre os trabalhadores foi terrível".


O mistério do vírus com baixa carga viral

"No hospital quisemos dar um sinal particular: ficar sempre aberto", afirma o doutor Loro. "É claro, trabalhamos em regime mais lento, não tendo transportes, mas continuamos a manter contato com as organizações não governamentais com as quais cooperamos, continuamos a consultar as crianças, também operamos, embora com 20% das nossas possibilidades. Há alguns dias aumentamos um pouco o nosso ritmo e dentro de uma semana esperamos colocá-lo na normalidade". É curioso pensar que não houve vítimas do coronavírus. "Na África Oriental não chegamos a 2 mil casos de contágio – disse o médico - e em Uganda na última quinta-feira (21/05) tínhamos 198 casos e nenhuma morte. A questão é: o vírus está circulando ou existem fatores nessas regiões que o detêm? Minha ideia é que alguma coisa existe - talvez seja descoberta no futuro - e que leva a um contágio muito baixo”. O fato é que não há pesquisas confiáveis, se pensarmos que seriam necessários 450 mil testes para testar 1% da população ugandesa, enquanto os testes realizados até agora estão abaixo de 100 mil, um número muito pequeno.


Comunicação do governo e distanciamento inviável

O problema realmente grande é como impor o distanciamento social nesses países, especialmente em favelas onde isso não é viável. "Os barracos geralmente são de 6 metros por 6 onde moram até 8 pessoas. O distanciamento nestes casos é impensável. No entanto, apesar disso, os números não estão crescendo exponencialmente. O governo tem feito um excelente trabalho - comenta o médico - e a população está muito, muito consciente dos riscos. Fora de cada loja há um lugar onde pode-se lavar as mãos".


O hospital CoRSU é um farol

Doutor Antonio Loro trabalha em um hospital particular no-profit que “se tornou um farol para toda a região, não apenas em Uganda, pela especialidade em cirurgia plástica e ortopedia”. Foi fundado pela CBM (Christian Blind Mission), uma organização sem fins lucrativos que atua desde 1908 para assistir, cuidar, incluir e dar uma melhor qualidade de vida às pessoas com deficiência que vivem nos países mais pobres. Doutor Loro afirma que “chegam em Campala crianças vindas do Sudão do Sul, Ruanda, Burundi, Quênia, Congo. "Cobrimos talvez 5-10% das necessidades ortopédicas pediátricas nesta área, mas também devemos considerar que as forças no campo de especialistas são muito limitadas e não comparáveis com as da Europa Ocidental". “Somos 50 ortopedistas para toda a população ugandesa de 43 milhões de pessoas. Pode-se imaginar o que podemos fazer. No Sudão do Sul há 3, no Congo 10. É uma montanha de exigências. Já operamos mais de 70.000 crianças nestes dez anos. Muitos deles foram socialmente reintegrados. Muitos voltaram para a escola. O médico explica que o sucesso desta oferta, embora mínimo em relação às necessidades, deve-se ao acesso gratuito (a cirurgia é subsidiada e para as crianças carentes é gratuita) e à disponibilidade econômica graças às doações feitas às organizações internacionais que possibilitaram a compra de materiais e equipamentos adequados".


As mortes silenciosas

O médico explica que em Uganda, a Covid tem encoberto as outras doenças silenciosas que continuam a causar vítimas."Aqui, ainda hoje, dezenas de crianças morrerão de malária, provavelmente cerca de vinte mães por complicações relacionadas ao parto, talvez cinquenta por tuberculose e outras tantas por HIV". "Para meu campo específico o que vemos são doenças relacionadas à pobreza e à miséria: infecções por falta de água potável, a higiene nas aldeias é muito escassa, assim como a nutrição. As dificuldades logísticas desempenham um papel importante. Meus colegas plásticos têm que lutar diariamente com queimaduras. Crianças caem, em brincadeiras, nas fogueiras no chão. Na minha área, tenho que lidar com infecções ósseas, tumores, desnutrição, tuberculose”. Há também o aspecto demográfico: a população aqui é muito jovem. Dos 43 milhões de habitantes, milhões têm menos de 18. “São números assustadores - acrescenta o médico - e especifica que "nascem 2 milhões de crianças por ano: destas, uma parte fica doente, outra nasce com doenças congênitas, e outra ainda terá necessidade dos serviços que o governo está tentando dar, mas a parcela do orçamento destinada à Saúde está abaixo de 12% do orçamento anual".


Histórias de coragem para ganhar a vida

À noite há o toque de recolher para evitar crimes. "Crianças com doenças abdominais graves ou mães que têm que dar à luz acabam morrendo na rua", conta Antonio Loro. Mas também surgem histórias de não resignação: "Causou grande comoção a história de uma enfermeira do norte de Uganda que, nesse período de lockdown, desafiou tudo e foi com um carrinho de mão buscar uma mãe em trabalho de parto e a empurrou por mais de 4 km, ao longo de uma estrada de terra no escuro, sozinha. E conseguiu salvá-la”. Conta também outra história, a de uma senhora que foi ajudada pelos vizinhos na hora do parto. “Para sair à noite é preciso de autocertificação. Estava escuro e não se podia chegar ao hospital porque havia problemas de eletricidade, devido ao mau tempo. Eles fizeram o parto com lanternas. Espero que chamem a criança de ‘luz’. Isso é realmente fantástico. Também há histórias mais tristes, mas a solidariedade contagiou, como diz o Papa Francisco".


 
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