O fogo do Espírito Santo nos impulsiona a uma coerência de vida

Frei Patrício: o fogo do Espírito Santo nos impulsiona a uma coerência de vida

O cristão é grande santo, seguidor de Jesus na medida que é repetidor criativo da Palavra do Senhor.

O símbolo do fogo em todas as religiões, mas especialmente no Cristianismo, na Bíblia, tem um valor muito forte de santidade, de purificação, de amor, de punição, de transformação. O pecado é considerado uma enfermidade, uma sujeira, uma infecção. É necessário, através do fogo, destruir todo o mal para que possa renascer a vida nova.

O Espírito de Deus é apresentado como fogo que queima sem se consumir; eterno, como é eterno o mesmo Deus. O amor é fogo vivo que queima nosso coração e nos dá a coragem para enfrentar todas as dificuldades. Não podemos resistir ao fogo, devemos deixar-nos absorver totalmente. Uma pequena centelha é capaz de romper todas as trevas e dar início a um grande incêndio que nada e ninguém poderá apagar. O fogo manifesta também no entusiasmo, no anúncio da Boa-nova.

O Pentecostes é um chamado à opção do fogo novo do Espírito Santo, que pousa sobre a cabeça dos apóstolos e infunde neles uma coragem que não se pode explicar. O medo jamais será comparado com o fogo. Algum dos meus leitores poderá perguntar por que este discurso sobre o fogo se ainda estamos no início do ano e longe do Pentecostes. Porque a palavra de Deus deste domingo nos fala do profetismo, que não é outra coisa senão o fogo de Deus que se acende no coração de quem se sente enviado para uma missão.

Vivemos, quem sabe, num mundo feito de um Cristianismo morno, sem entusiasmo, de forma que temos medo de colocar em risco a nossa reputação, o nosso nome e a nossa vida. Preferimos viver a nossa fé no escondimento, dentro de nós, tendo também símbolos religiosos no pescoço crucifixos, medalhas, escapulários (sim, escapulários, porque conheci uma pessoa que levava consigo dez escapulários de todas as cores), mas na vida concreta não temos o fogo do Espírito Santo, que nos impulsiona a uma coerência de vida e de palavra.
O Papa Francisco nos chama a ser uma “igreja em saída”, isto é, a agir sem medo, sem reticências e sem mas e porém. Creio que o nosso tempo é pior do que o dos primeiros cristãos, que eram presos, jogados no estádio para lutar contra leões e eram mortos em pouco instantes. A vida hoje é uma luta diária, constante em todos os momentos e dura para sempre, sem grandes conflitos aparentes, ou grandes perseguições visíveis, mas são as perseguições invisíveis que têm como finalidade cansar e desanimar.

Precisamos ser purificados e ser fortalecidos pelo fogo de Deus, que é o amor para nunca negociar e abandonar a luta para defender a nossa fé.

O carvão aceso de Deus purifica lábios impuros

É difícil esquecer, pela sua beleza e importância, o capítulo sexto do profeta Isaías, nele o profeta que tem medo, quer fugir da sua missão, mas, uma vez assumida, não volta atrás e vai em frente guiando o povo a não desanimar diante das dificuldades e as perseguições de todos os lados. Não importa a morte, o que importa é a flexilidade ao que o Senhor quer de nós.Deus seduz o profeta através da visão da sua glória, onde todos os anjos do céu cantam “três vezes santo”.

Santo, Santo, Santo é o Senhor

Essas palavras do três vezes santo ficam para sempre na liturgia de todas as línguas e são denominados pela palavra grega ‘triságio’. Deus é fonte de toda santidade e dele vai nascer toda a força humana. Diante desta grandeza de luzes e de glória, o profeta pronuncia uma única palavra de desânimo e de medo: “Ai de mim, estou perdido! Sou apenas um homem de lábios impuros, mas eu vi com meus olhos o rei, o Senhor dos exércitos”. Deus resolve a impureza de Isaías com rapidez e, para sempre, passa nos seus lábios um cravo aceso e ele está pronto para anunciar. Nesse texto temos a preocupação de Deus em buscar alguém que queira assumir a missão.

Quem enviarei? Quem irá por nós? 

Isaías, purificado, não tem mais medo e diz: “Aqui estou! Envia-me”. Que estas palavras penetrem hoje em nós e tirem todos os nossos medos e que possamos, como pessoas e como comunidade, dizer para o Senhor e para a Igreja “Eis-me. Envia me”.

Anuncio o Evangelho que recebi de Jesus 

Paulo tem feito a sua experiência de encontro e desencontro com Jesus de Nazaré, não guarda para si tudo isso, mas comunica com parresia, coragem, medo e com uma grande honestidade. Depois que encontrou Jesus, ele não parou nem um minuto de anunciar Seu nome e ia com angústia, ânsia, percorrendo o mundo afora para dizer para todos que o tempo antigo dos ídolos, da Lei, da escravidão havia terminado.

Jesus libertou a todos e deu a todos a força do amor, que unifica e gera comunhão. Há, porém, um grande medo em Paulo, o de que as pessoas não sejam féis ao anúncio recebido e se afastem novamente do Senhor. Mas qual é o Evangelho anunciado por Paulo, que ele chama de seu Evangelho? É Jesus de Nazaré, que morreu, ressuscitou, apareceu a todos os pastores, ao povo, e no fim apareceu também a ele, não porque fosse digno, mas sim porque Jesus é misericórdia. Paulo confessa a sua alegria e diz: “Sua graça não foi estéril: a prova é que tenho trabalhado mais do que os outros apóstolos – não propriamente eu, mas a graça de Deus comigo”. Devemos sempre pregar não a teoria, mas o que cremos.

Jesus continua a escolher os últimos

Quando Jesus chama alguém e recebe a resposta positiva acontecem maravilhas que ninguém pode compreender. Homens sem cultura são revestidos de uma sabedoria impressionante, pessoas medrosas têm coragem de enfrentar a morte, pessoas humildes são revestidas e cargos na igreja e o exercem com sabedoria e prudência. Desaparece o medo, desaparece tudo e só seguimos a pessoa de Jesus. O Evangelho de Lucas do chamado dos discípulos é de uma força única. A pesca milagrosa é só um pequeno pretexto para que Pedro tome consciência do seu pecado e Jesus possa dizer: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”. Uma nova missão se abre.

Ao chamado de Jesus não se pode resistir, se deve seguir, se abandona tudo e se começa uma vida nova. Deus tem confiança em nós e nos confiamos nele, e juntos realizamos a missão. Jesus continua a escolher os últimos, aqueles que aparentemente não valem nada, mas que têm uma disponibilidade a seguir ordens de Deus. O cristão é grande santo, seguidor de Jesus na medida que é repetidor criativo da Palavra do Senhor. Senhor, dai-me a força de dizer sim e ser fiel.

Escola de oração

Tudo isso é importante. Mas, o que quero recordar agora é sobretudo a chamada à santidade que o Senhor faz a cada um de nós, a chamada que dirige também a ti: “sede santos, porque Eu sou santo” (Cf. Lv 11,45;. 1Pd 1,16). “O Concílio Vaticano II afirmou e o Papa ratificou vigorosamente: munidos de tantos etão grandes meios de salvação todos os féis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho” (Gaudete et Exsultate, 10).


 
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